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Crônica “Um menino beija-flor”

Terça foi Porto Alegre e quarta foi Curitiba. Veja a emoção que o concerto de Porto Alegre causou nessa crônica de Milena Fischer.

Um menino beija-flor

A hora do concerto se aproxima. A sala do teatro começa a se encher. Na plateia, olhos mais curiosos do que ouvidos e almas buscam o melhor lugar para ver aquele que tem, na vida, uma saga. Ver a sua luta. Querem participar um pouco desses momentos em que o palco é maior do que a caminhada. Ali, a poucos metros de seus olhos ávidos, surge um gigante dançarino. Com braços mais leves e vigorosos do que os da primeira bailarina, ele parece penetrar na partitura que não está ali. Não diante dos olhos ávidos da plateia nem de seus próprios olhos, mas dentro de seu coração, retumbando pelos pulsos afivelados pelo tecido preto, firme, reverberando pelas estantes de cada músico que se verga diante dele.

O gigante não rege com a batuta. Não precisa de instrumentos. Sua vida é sua partitura – e ela é tão rica quanto as notas que se agruam e bailam em sua cabeça. Ele não resiste e dança junto. Rege com a alma, o corpo é só um reflexo. Rege com o rosto, as emoções são muitas para que seu corpo não responda com movimentos.

A hora do concerto já se foi, a música enche a sala e toma conta daqueles olhos ávidos, distraindo-os. Não querem mais ver o maestro que tem na vida, uma saga. Não conseguem mais se ater a seus gestos. A alma está, finalmente, enebriada. A música vence a curiosidade e o desejo de fazer parte daquele momento em que, mais uma vez, o gigante se supera. Quem foi para ver ficou cego de tanto ouvir.

No retorno de todos, o piano ocupa o maior espaço diante da plateia. Repousados de uma sinfonia heróica, tentam, novamente, concentrar-se em ver. Como pode aquele piano de ébano se oferecer tão abertamente àquele gigante dançarino, de pulsos afivelados? A curiosidade tenta se instalar. Novamente é vencida pela música.

Em seu retorno ao palco, o gigante se tornou menino. Um menino beija-flor de mãos de seda, sem fivelas, que encontra as teclas com carinho e subserviência. O piano manda nele porque a música, novamente, venceu qualquer barreira. Não são teclas, são pétalas de uma flor que ele quer beijar. Quer, a cada vez, conhecê-las de perto, inclinando-se sobre o marfim a cada toque. O gigante que vive uma saga e o menino que teve a vida inscrita naquele instrumento são apenas um.

A curiosidade da plateia não está mais lá. O silêncio é quase inexistente porque o gigante-menino sentado ao piano, sem amarras, faz emergir emoções que não se controlam. Cegos, somos apenas ouvintes. A imagem poderosa daquele homem-piano, um menino beija-flor, se transforma em som e lágrimas e algum tipo de êxtase que só a arte, apenas a arte, e porque é arte, pode provocar.

A música de João Carlos Martins venceu.


Milena Fischer, 24.11.2009, Porto Alegre

26/11/2009 Publicada por A Música Venceu!

  
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